Crise na fonte, vulnerabilidade móvel

by - maio 30, 2018




Desabastecimento em larga escala, filas enormes em postos de gasolina, aulas suspensas, prateleiras vazias em mercados, e um desespero contínuo em busca de mobilidade. As imagens vistas de manifestações pela busca de redução de preços do diesel, evidenciam o quanto a mobilidade é dependente do combustível fóssil. Manifestações estas, travada pelos caminhoneiros, nos relata que não se pode mais pensar em mobilidade, tendo como única alternativa, os sistemas dependentes de combustíveis fósseis. É fundamental dotar as nossas cidades, de uma rede integrada de transporte, sejam eles sobre trilhos, como estruturadores dos grandes fluxos, e/ou o uso de bicicletas, tornando plausível o direito à cidade.

De início se faz necessário uma distinção entre os conceitos de mobilidade e de transporte, para melhor compreensão do tema e de possíveis alternativas. Pode ser entendido como transporte, o deslocamento de pessoas, mercadorias, com o uso de meios de locomoção, individuais ou coletivos. Enquanto a mobilidade urbana, nada mais é que a característica do território, em relação à acessibilidade a diferentes áreas de uma cidade, bem como a sua estrutura, resultante de uma reunião de políticas de transporte, de circulação, de acessibilidade e de trânsito, além de demais políticas urbanas, com a finalidade primária de priorizar o indivíduo, quanto as suas necessidades e anseios.

Tal diferença, dá a oportunidade de destacar a possibilidade de uma mobilidade sem transporte, e também por outro lado a existência de meios de transporte sem mobilidade. Isto é, quando as pessoas têm suas necessidades providas nas imediações de sua moradia, a mobilidade pode ser dada a pé, sendo assim os meios de transportes, motorizados ou não, são menos essenciais para a sua locomoção. De modo igual, os meios de transporte podem ser onerosos em certas situações, já que muitos não possuem condições de acesso, obstando assim a tal mobilidade, a uma parte da população.

Com a procura de agilidade e conforto nos deslocamentos, o número de transportes particulares, foi aumentando progressivamente. Dessa forma, as vias vieram a se tornar insuficientes, vez que não houve ampliação simultânea ao crescimento da venda de automóveis, restando pouco espaço para os pedestres e ciclistas, trafegando nos meios urbanos em congestionamentos, acidentes e um alto descômodo no uso das vias públicas. No entanto a questão de mobilidade urbana vai além do congestionamento. A acessibilidade igualitária, os espaços para transportes alternativos, o transporte coletivo de qualidade, as tarifas e a uso de outros modais de transportes, são elementos significativos da circulação das pessoas, os quais se referem à mobilidade urbana.

Este tema vem sendo cada vez mais debatido, provocando até mesmo manifestações populares brasileiras, com ênfase nas tarifas de transportes em 2013, até chegar na atual crise de combustível. Ambos movimentos estão relacionados a transportes, falando de custos, em cuja composição o óleo diesel é parte importante tanto das tarifas de ônibus, quanto do custo do frete de cargas. As duas situações, encaram a fragilidade das políticas públicas, do planejamento e das regras tributárias, revelando a força de novos atores sociais e sua falta de confiança nos “tomadores de decisões”.

Voltando mais um pouco, em 2001, o apagão da eletricidade revelou nossa profunda dependência das usinas hidrelétricas, e hoje, 2018, a crise do diesel também revela essa dependência, já que sem os combustíveis fósseis, cargas e pessoas perdem a mobilidade em nossa sociedade. Se ainda é difícil compreender que o quadro socioeconômico que gerou a greve dos caminhoneiros, está associado ao locaute das empresas de transporte rodoviário, não é difícil perceber que ele exige saídas sustentáveis (e não a repetição do mesmo modelo). A longo prazo, estas possibilidades, passam necessariamente pela incorporação do planejamento do país, de uma racionalidade que permeia o acordo de Paris, pelo clima do planeta, que tem a intenção primordial a descarbonização da economia, isto é, acabar com a dependência dos combustíveis fósseis.

A mobilidade urbana é um desafio das grandes cidades, é uma preocupação das médias e é uma forma de prevenção para as pequenas. Visto que pensar nesta mobilidade de forma a tornar o trânsito mais coeso e fluente, é também pensar em um desenvolvimento sustentável. O futuro da mobilidade não está na bicicleta, no carro, no ônibus ou em qualquer modo de transporte, mas na integração entre eles. Por hora o desafio de convivermos e sermos resilientes a essa atual situação, é que encontremos alternativas viáveis e cabíveis, para contornar a falta de combustíveis fósseis, como até hoje, sendo a maior fonte de locomoção. Sejam estas alternativas de adotar o uso da bicicleta, transportes de trilhos, elétricos, o importante é que não deixe de ser pauta nas discussões e de possíveis ações, para o avanço econômico, social, sustentável e viário, do país.


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