A valsa da aquarela
Se por um instante Deus se esquecesse
de que sou uma marionete de trapo,
e que da vida me pertencesse um pedaço,
talvez não vivesse com tanto pesar
e diria tudo que pudesse levar.
Andaria quando os demais se detêm.
Despertaria quando os demais se mantêm.
Pintaria com um sonho de Van Gogh,
e sobre as estrelas um poema pra longe.
Regaria com as cores mais vastas
o sonhar a liberdade dessa valsa.
Aos homens daria o desprendimento,
soltar as amarras, esquecer o lamento.
Vestiria todas as questões com simplicidade,
com pincéis manchados, desenharia de novo a sociedade.
Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida,
desse papel não deixaria passar um só dia,
sem poder dizer à gente que quero,
e a aquela gente amar com exagero.
Tantas coisas aprendi de vocês, homens...
tantas coisas conheci assim, das flores.
Avistei o mundo do alto da montanha,
coloquei em aquarela a felicidade estranha.
Ouvi dizer que ali o sol nascia mais amarelo.
E que a vida era doce e tinha gosto de caramelo.
O doce eu descobri.
As cores eu colori.
A solidão fez morada,
onde a vista não tinha estrada.
É a valsa da aquarela que em nós dança,
a cada passo dessa ciranda.

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