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A valsa da aquarela


Se por um instante Deus se esquecesse
de que sou uma marionete de trapo,
e que da vida me pertencesse um pedaço,
talvez não vivesse com tanto pesar 
e diria tudo que pudesse levar. 

Andaria quando os demais se detêm.
Despertaria quando os demais se mantêm.
Pintaria com um sonho de Van Gogh,
e sobre as estrelas um poema pra longe.
Regaria com as cores mais vastas
o sonhar a liberdade dessa valsa.

Aos homens daria o desprendimento,
soltar as amarras, esquecer o lamento.
Vestiria todas as questões com simplicidade,
com pincéis manchados, desenharia de novo a sociedade. 

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida,
desse papel não deixaria passar um só dia,
sem poder dizer à gente que quero,
e a aquela gente amar com exagero.

Tantas coisas aprendi de vocês, homens...
tantas coisas conheci assim, das flores.
Avistei o mundo do alto da montanha,
coloquei em aquarela a felicidade estranha.
Ouvi dizer que ali o sol nascia mais amarelo.
E que a vida era doce e tinha gosto de caramelo.

O doce eu descobri. 
As cores eu colori.
A solidão fez morada,
onde a vista não tinha estrada. 

É a valsa da aquarela que em nós dança, 
a cada passo dessa ciranda.


JULIANA RODRIGUES 
CAFÉ ROSA 




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